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24 de maio de 2012

Por que decidi ser mãe?



Imagem relacionada No mês em que se comemora o Dia das Mães, Cirurgiãs-Dentistas compartilham com o APCD             Jornal suas experiências ao escolherem vivenciar as dores e os prazeres da maternidade.


// Texto Swellyn França //

Parte de um desejo psíquico, a maternidade não está presente em todas as mulheres, necessariamente. A aspiração de ser mãe vai além do social. Evidentemente, que as demandas sociais estimulam a mulher desde cedo a pensar sobre a maternidade, e isso pode ser percebido na própria educação infantil, no ato de brincar de boneca, do ensinar a ninar, entre outros.

No entanto, com grandes mudanças socioculturais, as lutas feministas favoreceram as mulheres no que diz respeito às escolhas e tais conquistas estimularam e quebraram antigos paradigmas. “Hoje, as mulheres ‘invadiram’ o mercado de trabalho e a relação com as múltiplas funções as sobrecarregaram.

Por essa razão, o querer ou não ter filhos passa, agora, a ter uma importância muito maior”, avalia a psicóloga e psicoterapeuta Jacqueline Meireles.

Costuma-se dizer que a mulher já nasce para ser mãe tanto biologicamente quanto anatomicamente, no entanto, não é o organismo que determina o ser materno, mas sim seus anseios, sonhos e idealizações. “A cultura ajuda, a sociedade reforça e o sujeito (mulher) é quem decide”, considera Jacqueline.

A psicóloga salienta que dificuldades existem sim, principalmente, para muitas mães que deixam seus filhos e vão trabalhar. “Nos primeiros meses após o parto, é um processo doloroso”. Surgem inúmeras dúvidas e questionamentos. 

A sensação inicial é de ruptura na relação mãe-filho, mas não se deve esquecer que mãe também é mulher e precisa de seu espaço, necessita viver. A autoexclusão não é saudável; a criança não pode ser vista como um fardo ou obstáculo à vida, mas sim como parte da existência. Trabalho, família, lazer são momentos de importante valor pessoal e relacional.

Saber organizar o tempo, bem como investir nesse tempo de forma qualitativa, objetivando melhorar os espaços no cultivo de bons relacionamentos familiares, favorece a interação e a construção do amor, que valida o contato mãe-filho. O fator presença constante não significa ser uma excelente mãe; a qualidade está na construção de um bom vínculo maternal.

O mal-estar momentâneo provocado pela ausência é natural. A criança aprenderá desde cedo que a mãe vai, mas volta. A saudade originada por momentos de ausência é salutar, pois existem sentimentos. O segredo está no equilíbrio!”

Sobre as mulheres que, por opção ou imposição, são mães sozinhas, a psicoterapeuta ressalta que elas aumentam ainda mais o seu nível de responsabilidade. Educação partilhada facilita muito, traz segurança, contudo, não significa que as mães ‘sozinhas’ serão menos capazes.

Já em relação às mães adotivas, Jacqueline é taxativa: “Não é o corpo que simboliza o vínculo, mas o coração, o amor, os sentimentos. Mães adotivas são todas que escolhem adotar de coração, independentemente de terem seus filhos acolhidos no ventre. O vínculo do corpo é importante, entretanto, não é fundamental.

Psiquicamente, a mulher não nasce mãe, ela se torna mãe, aprende a ser maternal por interferência da cultura e da sociedade. Os filhos são seres que ensinam essa arte com a construção do sentimento, do amor sem limites”.

Para as mulheres que desejam tornar--se mães, mas têm receios, Jacqueline afirma que cada uma deve procurar em si o sentido que tal desejo representa. “A maternidade não deve ser algo imposto, obrigatório, mas sim planejado, sonhado, idealizado e internalizado.

A maternidade se inicia no psiquismo, antes mesmo da concepção. São os sonhos, os atributos que vão formar a primeira imagem do bebê idealizado. Reciprocamente, não é coerente colocar em questão os valores maternais em detrimento ao profissional, ambos devêm ser julgados de modo particular.

É importante saber separar os momentos, dessa maneira, a mulher conseguirá realizar suas escolhas com maior segurança, tendo seus medos minimizados. Filho não é matemática, representa as relações, bem como o sentido de pertencimento, intimidade. A forma como cada sujeito encara os desafios diários sinaliza facilidades ou dificuldades em fazer escolhas.”

Para Jacqueline, “na existência nada precisa ser abolido em absoluto, apenas é preciso saber que existem papéis, e a opção de desempenhá-los será sempre particular e essa é a grande conquista, bem como o grande desafio, pois um dia os filhos crescem e as mulheres que apenas se percebiam mães descobrem que também são profissionais, esposas, femininas, matriarcas e, ainda assim, mulheres”.

Cirurgiãs-Dentistas que escolheram ser mães

O APCD Jornal entrou em contato com algumas mulheres Cirurgiãs-Dentistas que compartilharam suas experiências e são exemplos da conciliação entre as duas tarefas: profissional e mãe. Confira: “Tive minhas filhas gêmeas com 24 anos. Eu não podia tomar pílulas anticoncepcionais, então aconteceu sem planejamento. Trabalhava meio período como Cirurgiã-Dentista em uma escola da prefeitura e meio período em meu consultório. A conciliação foi difícil nos primeiros anos, mas quando se tornou possível eu abri mão da prefeitura e passei a dispor de mais tempo para as meninas. O meu marido foi uma pessoa muito presente na criação de nossas filhas. Vejo a situação de duas formas: no caso da profissional registrada, a legislação atual protege melhor a mãe, possibilitando o período considerável na companhia do recém-nascido, tornando mais fácil desenvolver a carreira. No caso da profissional autônoma, o planejamento deve ser mais cuidadoso e pode levar até ao sacrifício da carreira se não houver suporte financeiro. Isso porque a ausência do profissional autônomo por longo tempo de seu consultório pode ser muito prejudicial à carreira. Com o passar do tempo, as Cirurgiãs-Dentistas que não puderem contar com a ajuda dos pais, se possível, contratem uma boa profissional para manter o filho em casa, ou pesquise um bom berçário. Como experiência própria, posso dizer, sem dúvida, que há enormes sacrifícios, mas é possível manter a carreira e a boa educação com o amor dos filhos.” - Maria Tereza Barbosa Rolfsen, 57 anos. (São Paulo – SP)

"Conciliar vida profissional com maternidade não é fácil, mas também não é algo complicado. Devemos estabelecer prioridades, tentar levar a vida sem prejuízo nas duas funções. O ideal seria sabermos qual o melhor momento para sermos mães, mas nem sempre isso é possível; a natureza faz suas artes. Além disso, se ficarmos planejando muito nunca acharemos o momento certo. Tive minha filha aos 25 anos; já queria engravidar fazia um tempo. Engravidei quando estava formada há dois anos e trabalhando em três turnos, levei um susto e me perguntei: E agora? Eu morava no interior de São Paulo e minha família na capital. Foi um sufoco no começo, a licença-maternidade naquele tempo era só por três meses, trabalhei até na véspera da minha filha nascer. Por sorte, contei com a ajuda preciosa da minha mãe nas primeiras semanas. Foi difícil retomar a profissão no final desses três meses; aleitamento, cólicas, banhos com hora marcada, aluguel vencendo... Uma loucura que só nós, mulheres, entendemos. Ainda bem que nós, mulheres, temos o dom da multiplicação das horas... Nesse processo, algumas coisas ficam prejudicadas, mas não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Respeito quem escolhe a profissão e deixa a maternidade para segundo plano, mas acho isso ruim; às vezes, esquecemos que a natureza nos faz férteis, com vigor e garra para criar os nossos filhos por um tempo que acho pouco, a menopausa nos chega logo. Filhos e profissão convivem bem. Deixar de tê-los em função do sucesso profissional faz nosso futuro vazio. A profissão nos traz alegrias, faz massagem no nosso ego, nos dá poder, mas também nos desgasta. O tempo passa, envelhecemos, cansamos. Penso que a vida em família tem um peso maior. Para as colegas Cirurgiãs-Dentistas que trabalham e querem ser mães, digo para deixarem a vida levar; sejam felizes na vida pessoal e na profissional, lembrem-se que a profissão não é tudo, aproveitem a juventude, continuem estudando, sejam especialistas, mas tirem um tempo para serem mães. Somos capazes! Assim como eu, muitas mulheres conseguiram traçar um longo caminho na carreira, alcançaram sucesso, cargos importantes na área, e o mais importante: conseguiram também criar seus filhos e serem ótimas mães." - Maria Elizabeth Ramos Martins, 58 anos. (Guaratinguetá – SP)

“Minha primeira e única filha nasceu dois meses antes de eu completar 41 anos. Foi superplanejada e esperada! Durante os 20 anos de formada, tive praticamente dedicação exclusiva à minha carreira; um dos motivos de ter esperado tanto para ser mãe. Quando minha filha nasceu já estava profissionalmente estabilizada e tive o privilégio de poder organizar meus horários para estar com ela muitas horas por dia. Voltei a trabalhar quando minha filha tinha apenas 20 dias de nascida, porém, com horários bastante flexíveis. Ainda assim, meu ritmo de vida mudou muito. Abri mão dos cursos que ministrava, e passei a colocar na balança os convites recebidos para ministrar aulas e cursos. Em minha opinião, cada família tem suas metas e seu planejamento individual. Eu esperei muitos anos para ter minha filha. Hoje, posso dizer que não me arrependo da carreira que trilhei, dos muitos obstáculos que encontrei, e que o sucesso que tive é algo que me deixa um pouco mais confortável para concluir que seu eu soubesse o que era realmente a maternidade antes de ter sido mãe, teria tido mais três ou quatro filhos, porque ser mãe é, hoje, a melhor coisa que me aconteceu na vida. Não esperem muito tempo para conhecer o amor mais verdadeiro que alguém pode sentir. Mas, preparem-separa recebê-lo quando realmente estiverem prontas para dizer não a muitas oportunidades de trabalho em nome dele, para que essa escolha seja envolta em realização plena e prazerosa, e não gere frustrações. Também aprenda a usar cada minuto do seu dia, e cada minuto ao lado dos seus filhos, porque realmente a qualidade do tempo vivido ao lado deles é imensamente mais importante do que a quantidade. Não pode existir culpa em conciliar o trabalho com os filhos. Sinto que hoje minha filha com quase três anos de idade entende quando saio para trabalhar e é mais independente do que as crianças que ficam o dia todo com as mães. Ela valoriza cada minuto que estamos juntas e temos uma relação muito próxima. Respeito a idade dela e seu entendimento sobre o assunto,mas em sua linguagem abordo sempre minhas ausências para que ela desde cedo entenda que estarei sempre ao seu lado quando precisar, mas,principalmente, quando ela nem sentir que precisa. Acho que isso é ser mãe; é estar presente sempre, e construir uma base sólida de exemplos de amor e compreensão.” - Andrea Ashcar Cury,43 anos. (São Paulo – SP)

Jacqueline Meireles
Psicóloga/Consultora

Fonte: Jornal APCD Pág. 22 e 23
http://www.apcd.org.br/jornal/Jornal_2012_05/index.html 


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