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12 de julho de 2014

Saber merecer


                                                       COMPORTAMENTO
                                                       APCD Jornal // Julho 2014
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Psicólogos abordam a importância de ter a capacidade de receber e reconhecer o próprio merecimento


// Texto Swellyn França //

Você tem um grande objetivo na vida, mas sente que o merece? Se alguém lhe oferece algo, você aceita de
bom grado? Você acha que merece? Acredite, a resposta não é tão óbvia quanto parece. “Muitas pessoas sentem que incomodam o próximo e bloqueiam a capacidade de receber, o que as impede de prosperar emocional e financeiramente na vida”, afirma o psicólogo e coach, João Alexandre Borba.

Embora complexo, o especialista comenta que o tema é recorrente em suas consultas tanto como psicólogo
quanto como coach. “Essa questão do merecimento é algo muito sério e para entender a pessoa precisa em primeiro lugar olhar para dentro de si e verificar se está na direção do que busca e se o que quer é legítimo. Até por essa falta de clareza em saber o que buscam é que esses indivíduos muitas vezes não estão certos se merecem o almejado.”

Borba afirma também que é comum a essas pessoas incapazes de reconhecer o próprio merecimento doarem-se demais. “Elas oferecem ajuda aos outros, mesmo que isso as impeça de seguir em frente com sua vida. Essas pessoas têm tanta dificuldade em receber que se doam o tempo todo, e quando algo grandioso aparece na vida delas, elas travam, não acham que são merecedoras dessa vitória”, diz.

Na opinião de Borba, pessoas que dão muito atraem pessoas contrárias a elas, ou seja, aquelas que só querem receber. “Dessa forma, as ‘doadoras’ sentem-se sugadas pelos próximos, não se sentem queridas e nem cuidadas. Se você é uma pessoa que não sabe merecer e quer evitar esse sentimento, diga para as pessoas próximas que você quer prosperar, e não apenas financeiramente.

Peça coisas a elas, não tenha receio. Você possui um talento, e é mais sensível. Sabe reconhecer quando alguém precisa de algo, mas nem todos são assim. É necessário deixar claro o que você deseja dos outros.

É preciso haver um equilíbrio: se você se doa demais, precisa aprender a pedir. Peça para ser escutado. Pessoas prósperas equilibram os sentimentos. Entenda que se você pode fazer algo pelo seu amigo ou companheiro, ele também pode e tem capacidade de fazer para você. Não o subestime – e nem pense que está o incomodando. Deixe o orgulho interno de lado e entenda que se você consegue fazer algo, a outra
pessoa também pode conseguir. Deixe que alguém faça algo por você, e não se sinta mal por isso”.

Para a psicóloga especialista em clínica analítica e consultora em gestão de pessoas, Jacqueline Meireles, muito do conceito de merecimento, vem da dualidade na educação. “No processo de educação o ‘merecimento’ é pregado na forma de compensação. Muitos educadores utilizam o bom comportamento
como uma moeda de troca.

Desde pequeno o sujeito é induzido a se comportar em troca de brindes, presentes etc. Tirar boas notas, ser obediente aos pais, ou seja, atitudes que deveriam fazer parte da educação e do crescimento do indivíduo acabam por serem postas como recompensa. Deve fazer parte da educação e do interesse do indivíduo estudar, ter bons modos, respeitar-se e respeitar o outro, isso não pode ser transmitido como moeda de troca.

Quando o sujeito faz o que é certo, ele automaticamente obtém o apreço, mas o mérito vem do esforço, da superação, da aquisição. É como se a vida tivesse apontando, mostrando, ‘olha, tá vendo, você é capaz, você consegue’. Se a pessoa se capacitou para determinado emprego, ela merece tê-lo. Creio que pelo fato de quase sempre o indivíduo ser educado de modo a atribuir o mérito a troca, ocorre que acaba por não sentir-se merecedor.”

Neste sentido, ainda conforme Jacqueline, o orgulho é um mal conselheiro, “pois permutar um comportamento em prol de receber favores acaba por gerar sentimentos de iméritos. Em virtude de tantos ‘favores’, poucas pessoas sabem merecer, sentem-se em débito com o outro quase sempre. O merecimento reaviva o sentimento de plenitude, de autossatisfação, de autocapacidade. Em geral, as pessoas inseguras têm receio de receber ou de dar um ‘não’. Por medo de desagradar com palavras e atitudes, vivem atreladas aos caprichos dos outros e se anulam. Não existe ninguém incapaz, todos podem e merecem buscar posições de satisfação, mas a conquista vem do esforço, da persistência e principalmente da autossuperação. Tais vitórias agregam ao sujeito o sentimento de merecimento.

 Um exemplo bem simples é quando a criança está aprendendo a andar, a princípio devido sua pouca coordenação pode se desequilibrar e cair, caso tenha alguém por perto ela chora, pede ajuda, mas, se está só, tende a tentar levantar-se sozinha, em último caso é que aciona socorro. Quando consegue ela vai aos poucos adquirindo autoconfiança, a vitória veio do mérito de tentar levantar, do esforço
mental e físico”. Autoconhecimento e desejo de merecimento andam juntos.

Para os psicólogos, o autoconhecimento é uma ferramenta que, se usada de maneira correta, auxilia na obtenção e fortalecimento do íntimo; é a partir do autoconhecimento que as pessoas começam a estabelecer um processo de libertação emocional. “As pessoas são muito presas dentro de um mundo interno, que elas mesmas construíram e que, muitas vezes, as aprisionam. Da mesma maneira que temos recursos para afundar a nossa vida também temos de reerguê-la, a fim de fazer as coisas darem certo”, comenta João Alexandre Borba.

Jacqueline Meireles complementa que “o indivíduo vai gradativamente aprender a lidar com diversos tipos de situações por meio do aprimoramento emocional da inteligência, tendo maior discernimento e convicção quanto às próprias atitudes. Tais fatores favorecem a aptidão e o gerenciamento de conflitos. Aprender a reconhecer seus valores, saber seus limites e fragilidades são fatores que contribuem para o crescimento e para a ultrapassagem das fronteiras, o que leva o sujeito a ter a noção de limite entre ele e o outro e, consequentemente, ocasionando respeito mútuo.

Quando falo do autoconhecimento, ínsito o ser humano a encontrar-se com sua natureza. Afinal, ninguém consegue melhorar o que não conhece. Ser estranho do si mesmo, dominar os impulsos primitivos, aprimorar habilidades e fortalecer-se para o mundo. O autoconhecimento livra o sujeito da vulnerabilidade, fortalece sua autoimagem, o mantém em seus propósitos”.

Neste aspecto, Jacqueline entende que o autoconhecimento e o sentimento de merecimento andam juntos.
“Hoje as pessoas têm muito mais liberdade, mas em contra partida vivem presas às convenções sociais por
medo da opinião do outro, do julgamento alheio e acabam por privar-se na infelicidade das ideias.

A análise proporciona o conhecimento de si, pois de tanto escutar os outros, muitos acabam afastando-se de seus princípios, de suas verdades. Vivem em busca da aprovação externa, tornando-se um verdadeiro estrangeiro de seus sentimentos.

Um exemplo simples é quando perguntamos para uma pessoa qual sua qualidade e qual o seu defeito, ou seja, poucos sabem, alguns até confundem qualidades com defeitos. São perguntas simples, mas que apontam o quanto estranho são de si mesmos. Com isso, as pessoas sofrem devido a rótulos que a elas são colados, sentem-se improdutivas e incapazes, prisioneiras da opinião alheia. Não merecedoras! Infelizmente muitos abraçam o negativo, prova disso é que uma crítica atinge muito mais que um elogio.”

Com o objetivo de compartilhar o seu conhecimento com as pessoas, o psicólogo e coach disponibiliza um vídeo por semana no youtube, tratando de assuntos que possuem o objetivo de fazer com que as pessoas se conheçam melhor. “Trata-se do projeto ‘Life Impact’ que visa fazer as pessoas se reerguerem, e perceberem o quanto de força possuem”, descreve Borba.

Consciência do merecimento X reconhecimento dos próprios valores. O grande desafio é as pessoas entenderem que podem merecer. “O saber vem do aprendizado, e como tantas outras coisas o ser humano pode aprender a merecer. Quando ele passa a sentir suas vitórias com sentimento de missão cumprida de seus esforços, na compreensão de autoamor, quando desprovido de sentimentos de orgulho, vaidade, medo. Quando reconhece suas habilidades e sabe que é capaz. Merecimento é isso, é o reconhecimento.

Hoje muitos valores são deturpados, o modesto é aquela pessoa que faz escondido, o forte é aquele que não pede ajuda, não depende de ninguém. A sociedade aponta uma escala de classificação de valores. Esperar que o seu valor venha do outro é tratar-se como mercadoria, pois os outros tendem a colocar o preço que querem, como lhes convêm. Muitos não sabem de suas lutas, história de vida, conflitos internos, de sua força para caminhar diariamente. Por isso, é tão importante o autoconhecimento, pois ele mostra o quanto você merece.

Através da autoanálise, o indivíduo identifica seus pontos fortes e fracos, aprende a equilibrá-los e trabalha em prol de seu aprimoramento. Por se conhecer, o sujeito adquire sentimentos de positividade perante a vida, trabalha seus melindres e abraça tudo de bom e positivo que chega até ele. Porque entende que merece!”, assegura a psicóloga Jacqueline Meireles.

O psicólogo João Alexandre Borba concorda: “aumentando o autoconhecimento, a pessoa passa a olhar para dentro de si e pensar o que oferece para o outro - ofereço amizade, carinho, lealdade, valores, meu tempo... Isso tudo são coisas que os indivíduos têm para trocar e, quando chega alguém para devolver é interessante que a pessoa se abra para receber. A troca acontece, é rica, e traz a prosperidade emocional, que, por sua vez, aumenta o merecimento.”

Borba finaliza dizendo que para saber merecer a pessoa precisa cuidar de si. “É um processo diário... Olhar para si e se abrir para receber”. O saber vem do aprendizado, e como tantas outras coisas o ser humano pode aprender a merecer - Jacqueline Meireles




Jacqueline Meireles
Psicóloga
Fonte: Jornal APCD  - Pág. 18 e 19
http://www.apcd.org.br/jornal/Jornal_2014_07/index.html