O inferno são os OUTROS

O ser humano é social por natureza, trás em si uma necessidade de formar vínculos. O contato pessoa a pessoa tem ganhando força nas organizações e em redes sociais, inúmeras personalidades, um arsenal de pensamentos e algumas divergências. Nunca foi tão fácil partilhar da vida alheia.

Compartilhar a intimidade talvez seja um dos maiores desafios da sociedade atual. Através da mídia, tecnologia e sites de relaciomanento, a vida particular tem se tornando cada vez menos privada. Fotos, filmes, vídeos, lugares, pessoas, como não conviver.

Sartre em sua famosa frase resumiu muito dos sentimentos abraçados pelos indivíduos, ao citar – “o inferno são os outros.” Como esconder-se do olhar do outro, dos seus julgamentos, dos diferentes pontos de vista que incomodam.

Inferno, este aqui citado, não se trata de um local quente e carregado de indivíduos diabólicos, aqui há escolhas. Adicionar, excluir, permitir, bloquear, aceitar, recusar. Existem essas e tantas outras formas descobertas pelos indivíduos para tentar controlar os “estranhos invasores”.

Nas redes sociais os limites vêm sendo imposto virtualmente, mas nos demais seguimentos de comunicação a privacidade fica a desejar. Não a como barrar a liberdade de expressão, sob pena de censura, essa não tem respaldo moral.

Vivemos em um país democrático, onde o direito à fala nunca foi tão ovacionado, agora todos podem expressar seus pensamentos, mas até que ponto a liberdade pode ser utilizada sem ferir? E quando esse outro se sente tocado, atacado e atingido?

A voz ecoa mais uma vez, “o inferno são os outros”. As pessoas falam, qualificam, avaliam e em alguns momentos chegam até a tolher os planos alheios. Será que sem o outro a vida poderia ser mais fácil?
Os conflitos tendem a surgir à medida que há diferentes percepções sobre uma mesma idéia. O olhar do outro aponta, aprova e desaprova. É assim com as crianças, que aprendem a formar suas diretrizes através da visão do adulto.

O desafio é aprender a conviver com esse “sujeito infernal” e julgador, este individuo que insiste em refletir uma imagem distinta e igual a vossa. É extraordinário o quanto o julgamento alheio 'faz sentido', trás significado, ao mesmo tempo em que perturba também atribui um valor existencial.
Como indivíduos fragmentados o incômodo em relação a um olhar, uma fala, uma observação, pode interferir, modificar a forma de pensar e agir. No caminho dos relacionamentos interpessoais há uma grande desorganização aparentemente organizada. De tal modo que, a democracia tem infinitas vozes manifestando idéias e opiniões contrárias e até diferentes.
A liberdade surge como 'pena', ao mesmo tempo em que o sujeito pode escolher, ele é responsável pelas opções feitas. A exposição provoca uma sensação de desnudo, ao despir-se do privado o homem tende a esbarrar com seus desejos e medos.
Cada um carrega em si valores e regras, o grande grupo social transforma-se em subgrupos, verdadeiros times de sujeitos afins e não afins. Existe uma única forma de reconhecer-se “igual” mesmo que haja múltiplas diferenças, essa se faz através da similaridade.

Ao acolher uma opinião, um pensamento, uma idéia está intrínseco o sentimento de junção, de pertencimento, de reconhecimento do EU no OUTRO. Neste espaço relacional os sujeitos estão unidos em todos os lugares e em nenhum lugar.

Não há nada que me prenda a VOCÊ, a não ser você, no (EU) mesmo.



Jacqueline Meireles
Psicóloga/Consultora

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