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19 de junho de 2009

Eu deveria ter sido Eu, antes de nos tornarmos Nós...

Em uma relação afetiva o casal busca na junção o desejo de se transformar em "nós", mas será que pode haver cumplicidade no "nós", sem o "eu"? Será que quando não estamos em sintonia conosco fica difícil a harmonia com o Outro?

Na atualidade o eu está cada vez mais em evidência, porém não existe o eu sem o Outro, visto que é o Outro que dá sentido ao "eu". Portanto, tende o casal a enfrentar um triplo desafio: conciliar o amor por si próprio e o amor pelo Outro, negociar esses dois desejos de liberdade e de simbiose, adaptar sua dualidade ao parceiro na tentativa de ajustar o crescimento de modo recíproco.

Lembrando que antes do casal, há uma unidade cheia de valores, crenças, idéais e perspectivas opostas. Elisabeth Badinter diz que, "a hipertrofia do ego e o individualismo militante são sérios obstáculos para a vida a dois, tal como a desejamos. Tendo os objetivos mudado, não desejamos pagar qualquer preço apenas para que o Outro esteja presente ao nosso lado".

Vivemos em uma sociedade do "descartável", se o Outro não nos satisfaz nós o deixamos, levando em conta que pode valer mais apena cultivar o ego que sufocar um aspecto de sua personalidade. Será que aprendemos a nos fazer amar? E estamos dispostos a abrir mão dos sonhos, idéais de prosperidade em virtude do amor? No amor o que buscamos é a satisfação de estar junto, compartilhando com o Outro sonhos e desejos.

Existe uma tendência a esperar do companheiro uma entrega total. Mas será que amar é se entregar por inteiro? A palavra entregar tem um sentido muito peculiar, com ela não existe meio termo é o "dar-se por inteiro", "ser possuído por inteiro". E o que é este inteiro? Realmente não temos como medir o amor e a afetividade na relação, acredito que a medida será dada de acordo com a perspectiva do parceiro em relação ao Outro, o "Eu" é quem diz o quanto precisa para amar e ser amado e vai atrás desse ideal de amor, digo, ideal não real, pois as relações muitas vezes passam pelo imaginário, criando uma imagem distorcida do ser amado, uma pseudo realidade alienada que só é vista pelo amante.

Mas na relação amorosa os sentimentos tendem a oscilar a medida que as fantasias vão minando. Se no inicio existe uma certa tendência a imaginar o parceiro como o par perfeito, aquele que irá "nos amar e nos resgatar de nós mesmos", sendo promessa de dias felizes e amor eterno, com o passar do tempo a percepção muda, digo isso, pois tendemos a acreditar que o Outro mudou, porém ele continua sendo o mesmo, o que muda, na verdade, é a nossa forma de ver. Isso tudo faz parte de uma projeção que o amante atribuí ao ser amado, qualidades e defeitos muitas vezes inexistentes.

Não existe o Eu sozinho, nós nos constituímos com o Outro, o homem é um ser social que por natureza necessita do Outro para aprender, compartilhar, se formar e crescer enquanto pessoa. Com a relação afetiva não é diferente, ela trás possibilidade de amadurecimento e é a parti dela que podemos trabalhar os nossos defeitos e aperfeiçoar nossas qualidades.

Não podemos "coisificar" as pessoas muito menos a relação, o parceiro é muito mais que isso, ele nos possibilita a "constituir" um ser melhor em nós.

"O amor ablativo é ainda mais limitado na relação conjugal, notadamente porque o Outro não é uma parte de si, da mesma forma que o filho é. Conscientemente ou não, procedemos a uma estrita avaliação das perdas e lucros do Ego. Dar para receber, esta é a condição da sobrevivência do casal. O amor conjugal não funciona sem a regra absoluta da reciprocidade. Amo a ti tanto quanto a mim mesmo, com a condição de que tu me ames tanto quanto a ti mesmo, e de que me proves isso. Assim a necessidade do sacrifício anula o sentimento desse ultimo".(ELISABETH BADINTER, 1986 p. 272).

Amar é mais que isso, amar é o quanto de bom eu tenho em mim para dar aquela pessoa que acredito ser especial. Pois quando cada um dar seu melhor todos ganham.

Amar não é partir, mas unir.




Jacqueline Meireles
Psicóloga/Consultora

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